Foram os
bandeirantes os responsáveis pela ampliação do território brasileiro além
do Tratado de Tordesilhas.
Os bandeirantes
penetram no território brasileiro, procurando índios para aprisionar e jazidas
de ouro e diamantes. Foram os bandeirantes que encontraram as primeiras
minas de ouro nas regiões de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.
Dos 8,5
milhões de Km2 do território do Brasil, cerca de 5 milhões devem-se à
determinação de um grupo de exploradores que, actuando por própria conta e
risco e, quase secretamente, enfrentaram os inúmeros perigos das selvas do
Brasil, em busca de riqueza – Os “Bandeirantes” que saíram de São Paulo
e de Belém do Pará.
Bandeirante é entendido hoje em dia como um
sinónimo de paulista, mas, as bandeiras foram um fenómeno geral de expansão e
ocupação de todo o território brasileiro na época colonial. E, embora o fulcro
principal do bandeirismo tenha sido o aglomerado que surgiu em torno do Colégio
dos Jesuías, no planalto de Piratininga, e que o padre Manuel da Nóbrega, seu
fundador, dedicou ao apóstolo São Paulo, existiu, na verdade, um outro núcleo
importante em Belém, no Norte do Brasil.
Houve,
portanto, um bandeirismo paulista e um bandeirismo amazónico. O de São Paulo
foi mais característico e estável; o do Pará, após a expansão inicial,
frustrou-se. O nome mais importante do bandeirismo paulista é, inegavelmente,
António Raposo Tavares, português de nascimento, ao contrário dos restantes,
que eram mestiços. No bandeirismo amazónico, a figura mais impressionante e
quase única é Pedro Teixeira, que subiu o Rio Amazonas até ao Marañon, no Peru.
Aos bandeirantes
paulistas deve-se a descoberta de ouro em Mato Grosso e Minas Gerais, a
ocupação das terras situadas na bacia do Rio São Francisco, a destruição de um
Estado formado por escravos fugidos, o Quilombo dos Palmares, em Alagoas e
Pernambuco, o desbravamento e ocupação das terras interiores do Nordeste
brasileiro até ao Piauí. Ambos os ciclos bandeirantes expandiram os
limites do território brasileiro para além dos fixados pelo Tratado de
Tordesilhas, de 07 de Junho de 1494, no qual Portugal e a Espanha dividiam
entre si as terras situadas no Atlântico Sul.
Nos
termos deste tratado, a linha de fronteira luso- espanhola passava pelas
proximidades das cidades de Cananeia, no Sul e, Belém, no Norte, deixando à
Espanha praticamente toda a bacia amazónica, além da totalidade do território
do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, dois terços do
território de São Paulo, Goiás e nove décimos do Pará e todo o Amazonas, e
grande parte de Minas Gerais, totalizando de 5,5 a 6 milhões de quilómetros
quadrados.
Esta
grande extensão de terra foi incorporada ao território brasileiro pelo esforço
gigantesco das bandeiras paulistas e amazónica. No Norte, os bandeirantes
amazónicos utilizaram exclusivamente o sistema fluvial, guiados pelos índios
arauaques. No Sul, os bandeirantes paulistas percorreram as trilhas e
caminhos indígenas, guiados pelos índios tupis e tribos tupinizadas. O
principal caminho, o Piabiru, estendia-se por cerca de 200 léguas de sesmaria
pelo interior do continente, por aproximadamente 1.400 Km, ligando São Paulo,
no litoral, ao Paraguai. Este foi o caminho desbravado primeiramente pelos
jesuítas do Colégio de São Paulo para alcançar o Peru, e, depois, o caminho de
internamento das bandeiras que buscavam guaranis pacificados das missões dos
Jesuítas e os índios das tribos guaranizadas para vendê-los como escravos.
Os índios
arauaques, aliados dos bandeirantes na Amazónia, ocupavam uma extensa
área que ia desde o Orenoco, pelo vale dos rios Amazonas, Madeira-Mamoré e
Guaporé, até ao Alto e Médio Paraguai. Os Tupis-Guaranis adensavam-se na bacia
do Rio da Prata e estendiam-se, aparentemente sem solução de continuidade, até
à vasta zona geográfica das florestas tropicais húmidas, alcançando já em
tempos históricos, a Ilha de Tupinabarana, em águas amazónicas. Essa grande
extensão geográfica das culturas tupi-guaranis acarretava relações muito
intensas entre as tribos, das quais a colonização portuguesa soube sabiamente
tirar partido. A expansão bandeirante não pode ser explicada sem a
constatação do aproveitamento das relações intertribais das culturas
tupi-guarani e arauaque. Os Índios forneceram o conhecimento dos caminhos por
terra da navegação pelos rios, desvendando ao colonizador a rede fluvial do Rio
da Prata e do Amazona.
Os dois
núcleos principais das bandeiras – São Paulo e Belém do Pará – não constituíam
centros económicos importantes na vida da Colónia. Ambas as localidades se
caracterizavam por uma economia de colecta e apresamento de mão-de-obra, vivia
da bateia de ouro nos rios, constituindo esse ouro aluvial, depois dos escravos
índios, a sua principal riqueza.
O pequeno
povoado paulista, apertado pela Serra do Mar, via os seus rios nascerem a
pequena distânicia do litoral, porém com o curso dirigido para o interior do
sertão. Ao invés de descerem serra abaixo e desaguarem no mar, eles corriam
sertão adentro, como o Rio Tietê, indicando, deste modo, a direcção às
bandeiras paulistas. Atravessando o sertão selvagem, esses rios iam desaguar na
bacia do Rio da Prata.
Este
papel geográfico dos rios paulistas, indicando aos bandeirantes o sertão
de índios e riquezas fabulosos, foi a condição natural para o desempenho
histórico das bandeiras, que conduziram a fronteira política do Império
Português na América aos limites da bacia pratina. Nos fins do século XVl, os
índios do planalto paulista e da costa do lagamar santista foram vencidos pela
superioridade da colonização lusitana, escravizados ou posto em fuga,
internando-se no sertão. Partiram de São Paulo as chamadas protobandeiras do
misterioso Aleixo Garcia em 1526, de Pêro Logo em 1531 e de Cabeza de Vaca, em
1541.
A
primeira notícia mais ou menos oficial de uma bandeira operando com colonos e
índios vicentinos data de 1562, dirigida por Brás Cubas e Luís Martins, mas
ignora-se o seu itinerário. Acredita-se que tenha percorrido cerca de 300
léguas de sertão e que teve por objectivo a busca de ouro, cujos vestígios só
foram encontrados em Jeraguá, nas proximidades de São Paulo. Em outras regiões
do Brasil iniciavam-se as entradas no sertão. De Ilhéus partiu Luís Alves
Espinha em direcção a Oeste, de Pernambuco saíram Francisco de Caldas, Gaspar
Dias de Taíde e Francisco Barbosa em direcção ao sertão do São Francisco.
Data de
1538 o chamado ciclo das esmeraldas. De Porto Seguro partiu para o sertão
Filipe Guilherme. Outras entradas conhecidas são as de Miguel Henriques, em
1550, de Francisco Bruza de Espiñosa, em 1554, ao vale do Jequitinhonha, Vasco
Rodrigues Caldas, em 1561 ao sertão do Paraguaçu, Martim Carvalho em 1567 ao
Norte de Minas Gerais e Sebastião Fernandes Tourinho, em 1572, aos rios Doce e
Jequitinhonha. Em fins do século XVl, João Coelho de Sousa morria nas selvas
das cabeceiras do Paraguaçu. Belchior Dias Moreira atingiu com a sua expedição
a Chapada Diamantina.
Mas o
facto extraordinário é que os bandeirantes, no seu percurso da bacia do
Rio da Prata à bacia amazónica, navegaram em onze meses, 3 mil léguas, o
equivalente a quase meia volta ao Mundo ! Partindo de São Paulo, a expedição
rumou para o Paraguai, daí acercou-se da Cordilheira dos Andes através do
sistema orográfico chiquitano, de onde alcançou a região dos índios
chiriguanos. Explorou as faldas orientais dos Andes, regressando, em seguida,
pelo Guapaí até à planície crucenha, de onde iniciou o fantástico trajecto
fluvial pelo Guapaí, Mamoré, Madeira e Amazonas, onde alcançou a Gurupá.
Portanto, iniciada em São Paulo, a bandeira de António Raposo chegou à bacia do
Rio da Prata e os Andes Orientais, cruzando o divisor de águas
amazónico-pratino, navegando nas águas do Amazonas e seus afluentes até ao
Arquipélago Marajoana, no grande delta.
Por acção
dos Bandeirantes, a pouco e pouco, as linhas de demarcação da ocupação
da terra iriam consolidar-se numa nova configuração geográfica, empurrando para
a bacia do Rio da Prata e velha linha do Tratado de Tordesilhas, Dando à
Colónia Lusitana na América o traçado de onde iria surgir uma nova nação – o
Brasil moderno, nascido monárquico e independente, e que cobre uma extensão
territorial de 8.500.000 quilómetros quadrados !
António Raposo Tavares
Além do
apresamento de índios e da busca de ouro, as bandeiras tinham ainda outra
função importante para a Metrópole: serviam de ponta de lança da conquista e
povoamento do interior, numa época em que Espanha e Portugal estavam longe de
ter definido a fronteira de seus domínios no coração da América do Sul. Em algumas
expedições, essa função política e militar se destacou. Foi o caso da bandeira
chefiada por António Raposo Tavares, que deixou São Paulo em 1648 para
desbravar milhares de quilómetros do sertão até o Amazonas.
Português
nascido em São Miguel da Beja em 1598, vindo para o Brasil aos vinte anos,
António Raposo Tavares já era um experiente predador de índios quando se
envolveu naquela que seria a maior façanha de sua vida. Consta que esteve em
Portugal, traçando os planos da expedição, junto com altas autoridades do
Reino. O objectivo era aumentar a área do interior sul-americano sob domínio
português, descobrindo novos territórios e, se possível, reservas de metais
preciosos. Já nessa época conhecia-se a rota de São Paulo ao Peru; pelo menos
um bandeirante, António Castanho da Silva, chegara até lá em 1622.
Acredita-se até que as reduções jesuíticas do Itatim foram formadas para
bloquear essa via de acesso aos paulistas.
Preparado
para enfrentar qualquer bloqueio, Raposo Tavares dividiu a bandeira em duas colunas.
A primeira, chefiada por ele próprio, reunia 120 paulistas e 1 200 índios. A
segunda, um pouco menor, era comandada por António Pereira de Azevedo. Viajando
separadamente, os dois grupos desceram o Tietê até o rio Paraná, de onde
atingiram o Aquidauana. Em Dezembro de 1648, reuniram-se às margens do rio
Paraguai, ocupando a redução de Santa Bárbara.
Depois de
unificada, a bandeira prosseguiu viagem em Abril de 1649, alcançando o rio
Guapaí (ou Grande), de onde avançou em direcção à cordilheira dos Andes. Estava
em plena América espanhola, entre as cidades de Potosí e Santa Cruz de la
Sierra (hoje território da Bolívia). Aí permaneceu até meados de 1650,
explorando o mais possível a região. De Julho de 1650 a Fevereiro de 1651, já
reduzida a algumas dezenas de homens, empreendeu a etapa final: seguiu pelo
Guapaí até o rio Madeira e atingiu o rio Amazonas, chegando ao forte de Gurupá,
nas proximidades de Belém.
Diz a
lenda que os remanescentes da grande expedição chegaram exaustos e doentes ao
forte e que, voltando a São Paulo, Raposo Tavares estava tão desfigurado que
nem seus parentes o reconheceram. Como resultado da aventura, vastas regiões
desconhecidas entre o trópico de Capricórnio e o equador passavam a figurar nos
mapas portugueses.
Fernão Dias Pais
Fernão
Dias Pais estava com 63 anos de idade quando, em 1671, foi convidado por Afonso
Furtado, governador do Estado do Brasil, para chefiar uma grande bandeira em
busca de prata e esmeraldas. Membro de uma ilustre família de bandeirantes,
Fernão Dias conhecia de perto o sertão. Em 1636, acompanhara Raposo Tavares
numa expedição contra as missões do Tape, voltando à região dois anos depois.
Tomou-se, então, inimigo dos jesuítas, com os quais, entretanto, se
reconciliaria alguns anos mais tarde.
Para
satisfação do governador, o bandeirante não apenas concordou com a
missão, como aceitou arcar portuguesa com as suas despesas. Receberia, em
troca, honras e títulos para si e seus descendentes. Um desses títulos era o de
governador das esmeraldas. O trabalho de organização da bandeira demorou quase
dois anos.
Para
custeá-la, a Coroa contribuiu com a modesta cota de 215 mil réis, a título de
empréstimo, a ser pago pelo bandeirante quando descobrisse as
esmeraldas. Já Fernão Dias entrava com a considerável soma de 6.000 cruzados.
Antes de partir, Fernão Dias mandou na frente Bartolomeu da Cunha Gago e Matias
Cardoso de Almeida, com a missão de plantar roças de mantimentos no Sumidouro.
A bandeira saiu de São Paulo a 21 de Julho de 1674. Fernão Dias tinha, então,
66 anos de idade. Com ele iam seu filho, Garcia Rodrigues Pais, e seu genro,
Borba Gato, além de outros sertanistas experimentados.
Eram
cerca de quarenta brancos e muitos índios. Não se conhece com precisão o
roteiro seguido pela bandeira. Sabe-se, porém, que seguiu até as cabeceiras do
rio das Velhas (Minas Gerais), atravessando a serra da Mantiqueira. Para se
abastecer plantava roças pelo caminho, estabelecendo pousos em lugares como
Vituruna, Paraopeba, Sumidouro do Rio das Velhas, Roça Grande, Tucambira,
Itamerendiba, Esmeraldas, Mato das Pedreiras e Serro Frio. Muitos desses
arraiais transformaram-se em núcleos importantes para o povoamento de Minas
Gerais. Do rio das Velhas, a bandeira teria atravessado o vale do
Jequitinhonha, subindo até a lagoa de Vupabuçu.
Carlos
Leite Ribeiro
Fonte:
ecosdapoesia.net
Bandeirantes
Heróis ou vilões? A construção do mito
Durante
muito tempo, os bandeirantes foram encarados como "heróis".
Eles teriam sido os desbravadores que contribuíram para a construção de nosso
país, expandindo nossas fronteiras.
Essa
imagem heróica acabou dando lugar a outra, oposta: os bandeirantes
teriam sido bandidos cruéis e sanguinários, que saqueavam aldeias indígenas,
matando crianças, violentando mulheres e escravizando os índios.
Os bandeirantes, nos quadrinhos de "Piratas do Tietê", obra de Laerte
Em nossos
livros didáticos o bandeirante foi retratado dessas duas formas: ora
herói, ora vilão. Ambas as imagens exageram aspectos verdadeiros da vida dos bandeirantes
e ignoram outros.
Figuras polêmicas
Os bandeirantes
estão entre as figuras mais polêmicas da história do Brasil. A confusão se dá
entre a história dos bandeirantes propriamente dita e a construção da
memória em torno deles.
A imagem
que bandeirantes que há os traz calçados com botas de montar, vestidos
com calções de veludo e casacas de couro almofadado. É desse modo que eles
aparecem em pinturas, ilustrações de livros e até em estátuas.
A
pesquisa histórica revela uma realidade bastante diferente: a maioria dos bandeirantes
andava descalça e com roupas muito simples. Na verdade, todas as imagens que
vemos dos bandeirantes foram feitas muito tempo depois da época em que
eles viveram.
Expedições
que geralmente partiam de São Paulo e eram organizadas com o fim de capturar
índios e encontrar ouro e pedras preciosas, as bandeiras existiram do século 16
ao 18, enquanto as pinturas mais antigas sobre o tema foram feitas a partir do
século 19, sob a ótica idealizadora do Romantismo.
A construção do mito
Outro
fator que contribuiu para o mito do herói bandeirante foi a própria
transformação de São Paulo em uma metrópole, que ocorreu muito tempo depois da
época dos bandeirantes. No período colonial, São Paulo não passava de um
povoado isolado com pouco mais de mil habitantes.
O
crescimento da economia cafeeira contribuiu para que São Paulo crescesse. A
região ganhou a fama de "terra do trabalho", de lugar em progresso.
As elites paulistas resolveram difundir uma história idealizada, segundo a
qual, as raízes desse progresso já existiam na época dos bandeirantes.
Os membros da aristocracia do café seriam os descendentes diretos dos "heróicos
bandeirantes".
Os
paulistas, especialmente os membros da elite, traziam "no sangue" a
herança dos bandeirantes, homens valentes que não tinham medo de
desafios, o que explicaria porque os paulistas eram trabalhadores dedicados e
incansáveis.
Repare
que esse regionalismo está carregado de preconceito em relação aos habitantes
de outras partes do Brasil: São Paulo seria uma exceção, terra de riqueza e
progresso num país de miséria e atraso; o paulista leva o trabalho a sério
enquanto os brasileiros de outros lugares seriam "preguiçosos".
fonte: http://www.portalsaofrancisco.com.br/ História
























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